sábado, 29 de dezembro de 2012

audaciosamente foram onde série alguma jamais esteve


80 anos de Nicholle Nichols,
a tenente Uhura de Star Trek

Enviado por luisnassif, sab, 29/12/2012 - 15:00

Por marcelosoaressouza

Do Omelete

Nichelle Nichols | 80 anos da atriz que quebrou paradigmas na TV

Relembre a carreira da atriz que viveu a tenente Uhura em Jornada nas Estrelas

Nichelle Nichols, atriz que viveu a tenente Nyota Uhura na Série Clássica de Jornada nas Estrelas (Star Trek) completa 80 anos hoje.

Quando Nichelle entrou para a série de televisão de Gene Roddenberry em 1966, no auge dos movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos - sob a liderança de Martin Luther King Jr. -, sequer desconfiava que estava fazendo história. Como a quarta em comando a bordo da U.S.S. Enterprise, a oficial de comunicações Uhura tinha um papel de liderança e importância que nunca havia sido criado antes para a televisão por lá. Tanto que algumas partes de sul racista dos EUA recusavam-se a exibir o programa, tamanho o ultraje pelo destaque de Nichelle.A atriz cita frequentemente em entrevistas que nunca sentiu-se discriminada no set, mas que fora dele a situação era diferente. Ela entrava por uma porta "especial", pois era sempre barrada pelos guardas, que inventavam desculpas, e era desvalorizada por alguns integrantes da equipe técnica, como o fotógrafo, que nunca tirava imagens decentes suas para a divulgação.

Nichelle, porém, ignorou seus obstáculos e nunca queixou-se ao criador de série. Mas ao final da primeira temporada, ela optou por deixar Jornada nas Estrelas, já que tinha oportunidades na Broadway e poderia deixar para trás o preconceito que vivia diariamente. Roddenderry pediu a ela que pensasse melhor e que eles voltassem a falar dentro de alguns dias. Nesse meio tempo, Nichelle conheceu ninguém menos que Martin Luther King, que se apresentou em um evento beneficente a ela como um "trekker" e seu "maior fã". Ele a lembrou da importância de seu papel: "você percebe o quão importante é sua presença, sua personagem? Esse não é um papel para negros, ou um papel para mulheres. Você tem o primeiro papel não-estereotipado da televisão. Você quebrou um paradigma", lembrou a atriz em entrevista. "Aqui estamos nós, marchando, e você exemplifica exatamente onde queremos chegar".

Nichelle, obviamente, decidiu ficar em Star Trek - e protagonizaria outro dos mais importantes momentos da televisão mundial: o primeiro beijo inter-racial da televisão em horário nobre. No episódio “Filhos de Platão”, da terceira temporada, controlados por alienígenas, o comandante Kirk e sua subalterna trocam um dramático beijo (não sem antes enfrentar resistência da direção da NBC).

Com seu lugar de destaque na cultura e na história dos direitos civis, Nichelle foi convidada pela NASA para ajudar em campanhas de recrutamento para a primeira astronauta mulher da agência espacial. A ação não apenas selecionou Sally Ride, a primeira mulher astronauta, e Mae Jemison, a primeira negra a viajar para o espaço, mas também os primeiros astronautas membros de minorias: Guion Bluford, Judith Resnik e Ronald McNair.

Para Nichelle, "Jornada nas Estrelas não só mudou a televisão, mas também como as pessoas veem umas às outras. A série foi uma colaboração fundamental no processo de união das raças do nosso planeta". Jornada nas Estrelas e a atriz audaciosamente foram onde série alguma jamais esteve.





Vídeos:


ocarapááálida pode discordar do Dirceu, e deve, é DNA, mas precisa explicar essa história da cachoeira e outras privatarias esquecidas dos jornalanões


DIRCEU: JUDICIÁRIO NÃO É
PODER ABSOLUTO.
“FOI UMA FARSA !”


Roxin reafirmou o ululante: para condenar, há que haver provas!

Conversa Afiada




Do amigo navegante Paulo de Tarso Genro, conforme noticiou a Folha (*),

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/86182-dirceu-diz-que-2012-foi-o-ano-da-farsa-juridica-e-midiatica.shtml



O ano da conclusão de uma farsa, por José Dirceu


O ano de 2012 entrará para a história do Brasil como o de concretização de uma farsa político-jurídica e midiática elaborada e montada com o objetivo maior de, por vias indiretas, atingir o projeto de desenvolvimento do país iniciado com a chegada do companheiro Lula à Presidência da República.

Um projeto que, hoje, bem consolidado e conduzido pela presidenta, Dilma Rousseff, ameaça os antigos detentores do poder porque desarticula as perversas desigualdades sobre as quais esses velhos governantes estruturaram seu domínio sobre as vontades populares.


Sustentados nos meios de comunicação, poder sob forte monopólio e ainda controlado pelas velhas oligarquias, avocaram para si a pretensa prerrogativa de ser voz da opinião pública nacional e passaram a pressionar o Poder Judiciário para que este exibisse ao país a prova incontestável de que a era da impunidade acabou.

E esse marco só teria lugar se o julgamento da Ação Penal 470, apelidada de Mensalão como parte dessa estratégia, resultasse em um desfecho pré-conhecido: a minha condenação como mentor de um inexistente esquema de compra de votos no Congresso Nacional.

Fortemente pressionado — afinal, já no recebimento da denúncia se sabia que o STF (Supremo Tribunal Federal) decidira “com a faca no pescoço”—, o tribunal maior do país não resistiu e sucumbiu.

Trilhou o caminho do julgamento eminentemente político, mesmo sendo uma Casa eminentemente técnica, ainda mais em questões penais.

Tal escolha impede o fortalecimento dos princípios constitucionais fundamentais, o que se daria com o sopesar dos direitos e garantias legais do Estado e dos cidadãos, no lugar de um julgamento em que se aceitou condenar sem provas.

Soou ser mais importante dar uma explicação à “opinião publicada” — não qualquer explicação, mas a única esperada, a condenação. Como se a impunidade não estivesse presente em justas absolvições.
Nessa esteira, cometeu-se toda a sorte de inovações jurídicas: do ineditismo de um julgamento com dezenas de réus sem a possibilidade de duplo grau de jurisdição à utilização parcial de uma teoria jurídica para a dispensa de provas, na qual o próprio autor apontou equívocos de interpretação em sua adoção.

Os vários réus julgados coletivamente, ainda que com direito a outros foros, serviam à composição de um julgamento complexo, ampliando os espaços para decisões contraditórias e imprecisas, em que o ônus da prova cabia ao acusado, não ao acusador. Foi o que se viu.

As poucas vozes dissonantes que tinham espaço na grande mídia não hesitaram. “Dado que uma das peculiaridades do julgamento foi o valor especial das ilações e deduções, para efeito condenatório”, escreveu o colunista Jânio de Freitas, que pautou suas intervenções nas ponderações sobre o que se estava ocultando no processo.

Em inúmeras outras manifestações públicas, a data e o cronograma do julgamento foram criticados, por concorrerem, influírem e serem influenciadas pelo processo eleitoral em curso.

Marcar o julgamento para o mesmo período que as eleições? A cautela e o desejo de isenção recomendariam ou antecipação, ou adiamento, para insular a Corte. Mas não: subverteu-se o bom senso para afirmar que a opção só reforçava o caráter isento que o julgamento deveria ter.

O comportamento do relator da AP 470 também foi aqui e ali criticado, muitas das vezes pelos próprios colegas, como se fosse sua visão “a única verdade possível”, ou como se o resultado do juízo feito por um colegiado não devesse ser alvo de contraditórios e divergências.

Forjou-se um herói nacional, não pelas massas e movimentos sociais, mas das letras e imagens midiáticas. 

Assim, foi tratado com desprezo o fato de inexistir relação entre o voto parlamentar e o suposto ato da compra desse mesmo voto, pois isso derrubaria a tese central do chamado “Mensalão”.

Da mesma forma, preferiu-se fechar os olhos ao fato de que a natureza dos recursos utilizados na agência DNA Propaganda não era pública, contrariamente ao que propagou no decorrer do julgamento.

Foi menosprezado o documento do Banco do Brasil que nega o caráter público dos recursos, afinal, a Visanet é, de fato, uma empresa privada e multinacional, cuja sociedade é composta por 24 bancos.

Ademais, o BB é sócio minoritário, sem jamais ter aportado dinheiro na Visanet, o que desfaz a compreensão adotada pelo STF. Também se ignorou o fato de que uma auditoria pública feita pelo BB não encontrou irregularidades nas contas do fundo Visanet.

Mas o mais aviltante foi verificar a divergência na utilização da teoria do domínio do fato. Tal teoria, escolhida para me condenar sem provas, serviu para sustentar o argumento de que minha posição à época não permitia que se tivessem cometidos crimes sem meu conhecimento.

Isso aos olhos de parte dos ministros do STF, pois, para o autor dessa mesma teoria, o jurista alemão Claus Roxin, “o dever de conhecer os atos de um subordinado não implica corresponsabilidade” e “a posição hierárquica não fundamenta, sob nenhuma circunstância, o domínio do fato”, pois “o mero ter que saber não basta”.

Roxin reafirmou o ululante: para condenar, há que haver provas!

Costuma-se dizer que decisão judicial não se discute, cumpre-se. De fato, devem ser cumpridas, sob pena de caos institucional. Mas, sempre que se entender apropriado, devem ser discutidas. Contestadas, criticadas e, se possível, corrigidas. Pois é isso que faz toda instituição crescer e vicejar —inclusive o Judiciário, que não é um Poder absoluto.

Não será esta a primeira vez que minha fibra e a firmeza de minhas convicções e lutas serão postas à prova. 

Já disse outrora que entrei e saí do governo sem patrimônio, sem praticar qualquer ato ilícito ou ilegal, seja na condição de dirigente do PT, seja na de parlamentar ou de ministro de Estado.

Minha condenação se dá sem provas e a má aplicação da teoria do domínio do fato não apagará isso.
Como nas vezes anteriores, seguirei lutando. Para provar minha inocência e para que sigam acesas as chamas dos ideais e sonhos que ajudei a construir, a compartilhar, a defender e a realizar, dentro e fora do governo.

Após o ano da concretização de uma farsa, que 2013 seja o ano do ressurgimento da verdade.


José Dirceu, 66, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT.



(*) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é, porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.

Clique aqui para ler o Safatle: “Entrada de Ministro (Fux) no STF é opaca”.

Aqui para ler “STF é tribunal político: chega de ‘técnico‘”

Aqui, “Gilmar, o ator do mensalão: Ban-co-do-Bra-sil !”, onde se prova que o dinheiro da Visanet não é público.

Aqui, “Lula vai para a rua em 2013”.

E aqui para ver que a “Dilma tem a ver com mensalao, sim !”.

Paulo Henrique Amorim

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

ocarapááálida e os zumbis, umbis, mbis, bis, is, sss


REGINA DUARTE,
A NAMORADINHA DA CASA GRANDE


Por que a Economist está chateada ? Delfim explica: são os juros, os juros !

Conversa Afiada






A “crise” da editoria “o Brasil é uma m…” neste fim de ano, é a combinação de ar condicionado do Santos Dumont com apagão de energia elétrica.

Criou-se um curto-circuito mediático, instalado na Casa Grande por seus capatazes.

Neste fim de ano, o curto-circuito provocou as mais conspícuas manifestações de sentimento colonizado.

Nada mais “typique” desse colonialismo do que a Regina Duarte, responsável pela esmagadora vitória do Cerra em 2002.

Na página B7, da Folha, outro exemplar colonial e provincial, diz a namoradinha da Casa Grande:

“Viva Belo Monte ! Essa é a prova de que precisamos de uma nova estrutura em energia.”

A jenial assertiva foi em função da falta de ar condicionado no Santos Dumont.

Outra manifestação colonial e provincial localiza-se no Globo, na pág. 16, na colona (*) do Ancelmo Gois:

“… no apagão (sic) do Galeão-Tom Jobim, quarta, um passageiro do vôo 974 (Rio-Nova York), da American Airlines, gritou enfurecido:

– Se alguém aqui votar no Lula ou na Dilma é um f… da p …”

(O referido colonista não usa as reticências. No tempo do Dr Roberto, quando essa colona (*) era do Zózimo, a vulgaridade não vicejava.)

Dizia o professor Costa Pinto: o sentimento colonial é o último traço de que se livra aquele que sai do subdesenvolvimento a caminho do desenvolvimento.

(O referido passageiro da American Airlines provavelmente não desembarcou no Aeroporto Kennedy, onde houve um apagão, não por causa do calor, mas por causa do frio …)

Não param aí as manifestações colonizadas.

Tanto no Globo (o 12o. voto do STF) quanto na Folha, ao tratar da entrevista da Presidenta – onde ela agradeceu ao PT por estar lá – lê-se:

“Dilma ainda afastou a hipótese de trocar o Ministro da Fazenda, como sugeriu ( sic !) a revista The Economist…”

Só o PiG (**) seria capaz de levar a sério uma sugestão (?) de uma revista inglesa.

Nem a Economist acreditou que a sugestão pudesse ser aceita.

E a Urubóloga ?

Diante da mesma entrevista, ela considerou que a Presidenta foi abduzida.

E o que terá acontecido com as ideias da Urubóloga, aquela que se tornou o melhor que o pensamento neolibelês (***) brasileiro foi capaz de conceber ?

Ou as ideias da Urubóloga estão todas na Economist, de onde nunca saíram ?

A Casa Grande – no sentido do Mino Carta – ainda não pegou fogo.

Mas, cheira a mofo.

Em tempo: em homenagem à Casa Grande e a seus capatazes, o Conversa Afiada reproduz artigo de Delfim Netto, na Carta Capital retrasada, sobre a causa secreta da irritação da Economist (e dos neolibelês) com o Guido: acabou a mamata dos juros …



A ECONOMIST E SUAS PREMISSAS

Estou nesse ramo tempo suficiente para aprender que as críticas à política econômica são uma necessidade. Em determinadas circunstâncias são até bem-vindas, porque o simples fato de alguém estar em uma situação de “poder” não lhe transfere o benefício da infalibilidade. Nem que, para o poder incumbente, a eleição por uma eventual maioria lhe confira a “onisciência” a exigir a sua “onipresença”.

Sempre tive grande admiração pela The Economist, que passei a ler, semanalmente, desde 1952 na Faculdade de Economia e Administração, a FEA-USP, graças aos exemplares filados do grande professor W. L. Stevens, a quem o Brasil deve a introdução da estatística fisheriana.

Cativava-me a clareza dos textos, a imparcialidade (relativa) e o tom doutoral e provocador dos editoriais. Até hoje a revista se considera, convictamente, portadora de uma ciência econômica universal, independente da História e da Geografia.

Criada em 1843, tinha como objetivo fundamental defender a liberdade de comércio, então em discussão na Inglaterra. Fala, a seu favor, não ter mudado nos seus 169 anos. É reconhecida como a mais influente revista econômica internacional. Isso está longe, contudo, de garantir a validade dos seus conceitos. Se há uma virtude escassa na excelente The Economist é a humildade: ter, ao menos, uma pequena dúvida.

O deselegante e injusto ataque ad hominem ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, partiu de duas premissas falsas:

1. O Brasil não estava “bombando” no início de 2011. O PIB caíra 0,3% em 2009 e, por puro efeito estatístico, aumentara 7,5% em 2010. O crescimento médio de 2009/2010 foi de 3,6%, o mesmo número medíocre obtido nos últimos 20 anos.

2. O ministro não errou sozinho, quando sugeriu um crescimento no terceiro trimestre sobre o anterior entre 1,1% e 1,3%. Analistas financeiros do Brasil e do restante do mundo, inclusive The Economist (por seu instituto de análises), acreditavam na mesma coisa. O resultado apurado pelo IBGE (sobre o qual não paira qualquer dúvida de credibilidade) foi mesmo uma surpresa (0,6%). Isso nos deixa com um problema. Se os inúmeros estímulos postos em prática produzirem um crescimento de 0,8% no quarto trimestre sobre o terceiro, o PIB de 2012 será da ordem de 1%, com crescimento per capita nulo.

O baixo crescimento tem pouca relação com as políticas monetária, fiscal e cambial. Tem mais a ver com uma redução dos investimentos gerada pela desconfiança exagerada entre o setor privado e o governo. Mesmo com a -pequena recuperação no setor industrial (que, é provável, continuará nos próximos trimestres) não tem acontecido nada brilhante para entusiasmar o setor privado.

Há gente, no meio empresarial, assustada com a forma de ação do governo, a enxergar uma tendência intervencionista na atividade privada. Quando acontece esse tipo de dúvida, fica difícil acelerar os investimentos.

Fala-se de quebra de contratos, quando isso não existe: todos os contratos estão sendo garantidos na energia. O que talvez pudesse ter sido diferente é a forma como a renovação das concessões das usinas foi tratada: poderiam, talvez, ter mandado um projeto de lei ao Congresso. Mas todos sabem ser preciso reduzir as tarifas de energia, claramente sobrecarregadas por impostos.

A dúvida dos investidores é, dessa forma, muito menos relacionada à qualidade da política econômica, no âmbito fiscal, monetário e cambial.

Fez muito bem, portanto, a presidenta Dilma ao rejeitar a impertinente sugestão da revista para demitir o ilustre ministro da Fazenda do Brasil!

O comentário presidencial, muito mais para o uso interno, foi simples e direto: “Não vou tirar o Guido”, sem precisar explicar coisa alguma, mostrando apenas estar a par dos interesses contrariados, da choradeira nos mercados financeiros que lamentam o fato de o Brasil não ser mais “o queridinho” dos investidores-especuladores. Agora é o México, que os anjos o protejam… Como se devêssemos nos chatear muito com isso…

Não diria que existe da parte da revista algum objetivo maligno, apenas um ataque muito deselegante, a causar decepção, mas se insere no espírito provocador que lhe é característico.

No fundo, a crítica procura disfarçar o mau humor de investidores com o retorno em dólares na Bovespa (-8%) ante os 20% positivos na Bolsa mexicana. E com o fim da era do ganho fácil e sem risco no Brasil.



Paulo Henrique Amorim



(*) Não tem nada a ver com cólon. São os colonistas do PiG (**) que combatem na milícia para derrubar o presidente Lula. E assim se comportarão sempre que um presidente no Brasil, no mundo e na Galáxia tiver origem no trabalho e, não, no capital. O Mino Carta costuma dizer que o Brasil é o único lugar do mundo em que jornalista chama patrão de colega. É esse pessoal aí.

(**) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

(***) “Neolibelê” é uma singela homenagem deste ansioso blogueiro aos neoliberais brasileiros. Ao mesmo tempo, um reconhecimento sincero ao papel que a “Libelu” trotskista desempenhou na formação de quadros conservadores (e golpistas) de inigualável tenacidade. A Urubóloga Miriam Leitão é o maior expoente brasileiro da Teologia Neolibelê.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

se preparando para 2013? o carapááálida, também!


2013, o ano do golpe

Posted by eduguim on 27/12/12 • Blog da Cidadania




Antes que 2012 termine, há que refletir sobre o que boa parte da opinião pública – a parte que não embarca na politicagem da oposição demo-tucano-midiática – já intui e comenta, que 2013 baterá o recorde de todos os anos anteriores do pós-redemocratização em termos da infatigável guerra da oposição midiática contra o governo federal e o partido de sua titular.

E a primeiríssima reflexão é a de que, hoje, é muito menor o contingente que tenta desqualificar sem discussão a premissa golpista em um país de tão larga tradição nessa prática compulsiva de uma elite que luta ferozmente para manter privilégios que fizeram do Brasil o país virtualmente mais injusto do mundo – pois os mais injustos são países paupérrimos da África.

Há menos de um ano, quando se falava em golpe diziam que não havia “clima” para tanto, que seria paranóia etc. Hoje, o discurso persiste inclusive entre setores que se dizem “de esquerda”. Todavia, aumentaram exponencialmente os que enxergam o esforço golpista, que se traduziria em mais uma tentativa de golpe “institucional” na América Latina

As recentes experiências golpistas hondurenha e paraguaia, como se sabe, sucederam a tentativa venezuelana lá em 2002, desfechada sem sucesso, ao contrário das duas que sobrevieram e que vingaram, fazendo salivar aqueles que, ao longo do século XX, espalharam quarteladas golpistas pela região.

Recentemente, li no Twitter um desses militantes da mídia disfarçados de “esquerdista” que, ironizando um texto meu, perguntava como seria possível um golpe sem censura a jornais. Espantoso, não é mesmo? A gente fica sem saber se é ignorância histórica ou má fé, pois é difícil achar alguém minimamente escolarizado que não saiba o papel da imprensa no golpismo nacional do século XX.

Mas vamos em frente. A segunda questão é a da razão para os flertes com o novo modelo de golpe, o modelo “institucional” com o qual se pretende tirar do cenário político candidatos de esquerda com alta aprovação e expressivo eleitorado como Manoel Zelaya, Fernando Lugo e Hugo Chávez.

Não me parece polêmico afirmar que a oposição tem cada vez menos perspectivas de retomar o poder em 2014. Recentes pesquisas de opinião dos institutos Datafolha e Ibope revelaram que o PT não tem um, mas dois candidatos em condições de se eleger em primeiro turno. E que a oposição conta com nomes cujo desempenho é fraquíssimo.

As razões para esse favoritismo do PT para as eleições de 2014 deveriam ser claras para todos, mas o fato é que a mídia, a oposição e a militância oposicionista-midiática parecem que acabam acreditando naquilo que inventam e difundem como fatos, mas que não passa de distorções, invenções e desejos.

Há, pois, que entrar no terceiro tópico, o das armas que cada lado tem para enfrentar a contenda que se avizinha, a de 2013, que só perderá em virulência para a de 2014.

Do lado da oposição midiática, o armamento é farto, diversificado, sofisticado e multibilionário. Apesar da oposição formal (partidária) exangue, sem votos, sem propostas e que vai encolhendo a cada eleição, há os grandes impérios empresariais, com destaque para os de comunicação – pelo protagonismo e pelo poder –, e os não menos importantes tentáculos do Judiciário e do Ministério Público.

Mas não é só. A CPI do Cachoeira revelou que a base aliada do governo Dilma é infinitamente menor do que parece, pois o PMDB, o PSB e os pequenos partidos de direita que a compõem já se revelaram inconfiáveis, chegando a atuar em consonância com a oposição partidária, a mídia e os braços destes no Judiciário e no MP.

Como para manter a base aliada é preciso fazer concessões para não incomodá-la, a possibilidade de reação do governo e do partido de sua titular se reduz drasticamente, como ficou claro, mais uma vez, na CPI do Cachoeira, quando o fato de muitos peemedebistas serem donos de veículos de mídia blindou a Veja naquela Comissão.

Os acordos escancarados entre a oposição formal e o PMDB foram ainda mais longe, chegando a blindar, também, aquele que, com base em uma fartura impressionante de provas materiais e testemunhais, pode ser considerado o segundo homem do esquema criminoso goiano, que atingiu a marca do bilhão de reais, fazendo os valores do mensalão “petista” parecerem gorjeta. A impunidade de Marconi Perillo, assim, mostra quão poderosa é a coalizão golpista.

O que, então, resta de armas ao governo Dilma e ao PT? Apesar de menos rápidas e ruidosas, as armas desse lado não são desprezíveis. E a “caneta” é a principal. Desta, decorrem o que uma perspicaz leitora com a qual conversei por telefone dia desses chamou de “pacotes de bondades”, dos quais decorre a popularidade estratosférica de Lula, Dilma e PT.

Mas tudo vem do fato de que esses atores governam o país, tendo como produzir políticas públicas que fazem com que o eleitor reflita que não dá para trocar o certo pelo duvidoso com base em discursos moralistas entoados por aqueles que não têm a menor condição para fazê-los e em discursos sobre a economia que se chocam com a realidade econômica da sociedade.

A “caneta” do governo petista reduziu os juros de forma inédita no país, aumentou os salários, praticamente extinguiu o desemprego, fez disparar o crédito ao consumidor e, ainda que em ritmo infinitamente menor, fez cair, de forma inédita, a concentração de renda.

Já foi amplamente explicado, nesta página, que a estratégia da direita midiática faz todo sentido do mundo, pois simplesmente não tem o que oferecer. As políticas sociais petistas como, por exemplo, o Bolsa Família e as cotas nas universidades públicas vão se impondo contra os discursos que tentavam desqualificá-las perante a sociedade.

O Bolsa Família, há tempos que só vem sendo criticado pelos militantes da oposição midiática, pois os políticos oposicionistas não têm coragem para atacar um programa tão popular. E agora são as cotas, às quais até o governo tucano de São Paulo vai se rendendo, mesmo que com reticências contra as cotas raciais. Mas está sendo quebrado o paradigma.

Contudo, se o PSDB, o DEM e o PPS fossem vistos como partidos com credibilidade para investirem no social, não estariam fora do poder. Esses partidos, com os discursos virulentos de outrora contra políticas sociais petistas e contra o modelo de desenvolvimento e gestão econômica vigentes, carimbaram-se, ao lado da mídia, como agentes dos ricos.

Eis que chegamos à inviabilidade da disputa político-eleitoral como forma de a oposição midiática retomar o poder. Teria que haver uma hecatombe econômica no Brasil, com forte queda de renda e com expressivo aumento do desemprego e da desigualdade para que vicejasse um desejo da maioria por mudança.

Mudança só é desejada quando se está mal-acomodado, e não haverá discurso sobre “pibinho” ou “corrupção” que faça a sociedade achar que a sua vida vai mal justamente quando mais e mais pessoas vão sendo incluídas no mercado de consumo de massas e no mercado formal de trabalho.

Não que não haja desejo de mudança. Há e até ficou muito claro em 2012, com o impressionante desempenho do PT nas eleições ao vencer no maior colégio eleitoral do país, São Paulo, capital que, até há alguns meses, era considerada a mais sólida fortaleza oposicionista. Só que é um desejo de mudança em favor do PT em vez de ser contra.

Com a resiliência do potencial eleitoral do PT e com a ausência de perspectivas e de discurso da oposição, basta a menor reflexão para concluir que esses poderes que anseiam pela retomada do poder para pôr fim, sobretudo, à distribuição de renda em curso, não se conformarão em ficar mais quatro anos fora do poder, a partir de 2014.

O golpe “institucional” à brasileira, pois, já está desenhado. Lula, o “odiado” (pela direita microscópica e midiática) dificilmente deixará de ser denunciado por iniciativa da mesma Procuradoria Geral da República que dispõe, também, da prerrogativa de denunciar presidentes da República.

Roberto Gurgel, o atual procurador-geral, pertence ao mesmo grupo político – sim, o Ministério Público tem correntes políticas muito bem definidas – do antecessor, Antonio Fernando de Souza, autor da denúncia do mensalão “petista”. E ficará mais sete meses no cargo. Uma eternidade, em termos de tempo para tentar inviabilizar Lula e Dilma como candidatos potenciais à sucessão desta.

Quanto ao STF, ainda restam a Dilma duas indicações – uma para a vaga do recém-aposentado Carlos Ayres Brito e outra que decorrerá da aposentadoria precoce do ministro Celso de Mello.

Na hipótese de que o recém-nomeado Teori Zavascki se revele um legalista como Ricardo Lewandovski, com José Antonio Dias Tófoli e com duas novas indicações racionais por Dilma, seriam cinco ministros que, ao menos em tese, barrariam o golpismo naquela Corte em meio a um total de onze.

As ministras Carmem Lúcia e Rosa Weber dão esperança de comedimento ainda que tenham se acovardado durante o julgamento do mensalão, mas só no que tange ao núcleo político daquela ação penal, núcleo esse que a mídia deixou muito claro que não aceitaria que não fosse condenado. Assim, o jogo ficaria equilibrado.

Todavia, também no STF ainda restam vários meses de sobrevida ao núcleo golpista, pois as novas nomeações para aquela Corte sempre demoram a se concretizar.

Não chega, portanto, nem ao final de 2013 o prazo para a direita midiática desfechar seu golpe “institucional”, limitando ao ano que entra o prazo máximo para impedir que os candidatos do PT à sucessão de Dilma dêem uma nova surra eleitoral na oposição demo-tucana, o que obrigará o modelo nacional de golpe a se aproximar do modelo-relâmpago do Paraguai.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

"Não se disputa corações e mentes para a cidadania sem investimento pesado na educação"


É a disputa de corações e mentes para a cidadania plena, estúpido!

novembro 19th, 2012 by mariafro



Comecei a escrever este texto há uma semana e ficou aqui abandonado. Discussões hoje no Facebook sobre Joaquim Barbosa, Collor, o Procurador Gurgel e democratização das comunicações me fizeram lembrar dele.

O que o provocou foi o caso dos alunos evangélicos no Amazonas que se recusaram a fazer um trabalho sobre o candomblé. O nível de intolerância e desrespeito às diferenças e à própria história desses alunos apesar de me entristecer como educadora não me surpreendeu. Posso apostar, mesmo não vendo fotos dos alunos em questão, que no meio deles há negros…

Lembrei-me dos embates durante a escrita de minha primeira coleção didática. Fui convidada em 2000 para escrever uma coleção de história para crianças de Ensino Fundamental I pela editora Scipione. Entreguei meus originais à editora um ano depois, quando a Scipione ainda não havia sido comprada pelo Grupo Abril. A obra foi inscrita no PNLD 2004 e foi vencedora do Prêmio Jabuti 2005.

Bastante elogiada pela crítica e reconhecida no Guia do MEC por ser a primeira coleção que aplicava a 10639/03 (embora tivesse entregue os originais em 2001 e a Lei da Obrigatoriedade do Ensino da História e Culturas Africanas e Afrobrasileira só tivesse sido promulgada por Lula em seu primeiro mandato, em 2003 e a Diretrizes para a sua aplicação publicadas em 2004).

Aliás, foi a primeira lei assinada pelo ex-operário então eleito presidente do Brasil e, simbolicamente, um marco de seu governo que desenvolveu uma série de políticas públicas na área educacional como o Prouni e que em diferentes áreas considerou a questão de gênero e a questão étnico-racial pra implementação de políticas públicas em seus dois mandatos.

Obra de referência e alvo de ataque de pastor vereador proselitista

Como historiadora que investiu algumas décadas na pesquisa sobre legislação escravista no Brasil e Portugal, sobre o racismo no discurso da medicina legal, sobre a representação dos negros nos jornais do século XIX, sempre achei um pouco absurdo ter de se criar uma lei para que os negros fossem estudados para além da escravidão, para que se reconhecesse a importância da população negra na formação da história do país.

De todo modo minha coleção de história para as crianças antecipou a lei 10639/03 e exatamente por isso se tornou alvo de ataques de proselitistas. Assim que o MEC publicou o Guia, em 2004, um pastor da Igreja Quadrangular que também era vereador da cidade de Pato Branco, Paraná, fez um longo discurso na Câmara acusando-me de autora do demônio e minha obra de coisa de Satanás. Fez uma série de representações contra a minha coleção. Tudo isso porque um dos volumes trabalhava com a mitologia dos orixás.

Vivemos num país que tem cerca de 180 povos indígenas diferentes entre si, com línguas, culturas, mitologias diversas, um país que contou durante pelo menos 300 anos com um intenso tráfico de africanos escravizados oriundos de várias regiões do continente, donos de línguas, cultura e mitos diversos. Essa riqueza cultural deve ser motivo de orgulho sempre. Entretanto, propor a temática da mitologia Ioruba para o trabalho didático com crianças fez despertar a fúria do pastor-vereador que usou o púlpito de uma Câmara Municipal pra propagar seus preconceitos contra o continente africano, os povos africanos e religiões afrobrasileiras, além de toda a sua ignorância sobre esses assuntos.

É interessante também notar que a mitologia grego-romana é inclusive tema de vestibular, mas trabalhar com o panteão de deuses de uma religião praticada no Brasil, genuinamente afrobrasileira é um tabu, que desperta a fúria e a intolerância de algumas igrejas.

Não se combate racismo, sexismo, homofobia ou qualquer preconceito discriminatório sem políticas públicas efetivas

O ex- presidente Lula iniciou uma transformação nos seus dois mandatos que se continuada ainda operará mudanças mais visíveis que as econômicas vividas pela população negra na última década.

Mesmo assim há ainda um longo caminho a percorrer. Não se vence preconceitos sem altos investimentos públicos, sem trabalho coordenado de várias instâncias. É preciso que governos federal, estaduais e municipais tenham vontade política e invistam recursos para o combate ao racismo e a toda ordem de preconceito.

O Estado alemão até hoje gasta fortunas na propaganda anti-nazista, no combate ao neonazismo, na educação de futuras gerações pra que jamais se repita o horror do nazismo em território alemão.

A escravização de povos africanos em nosso território é a instituição mais antiga desde a chegada da frota cabralina. Foram mais de 300 anos submetendo à força a maioria da população ao trabalho forçado, comercializando pessoas, aplicando castigos corporais de extremada violência pra forçar obediência e quebrar resistências.

Liberdade formal sem reparação, sem acesso à cidadania

Após séculos de exploração da mão de obra africana escravizada, a abolição foi apenas jurídica, não significou distribuição de terras ou acesso à cidadania plena aos negros com direito à educação, ao trabalho digno.

O racismo brasileiro durante fins do século XIX e todo o século XX produziu o grande fosso existente entre a população negra e branca. Segregou, sem o auxílio de nenhuma lei de apartheid, os negros nas periferias, nas favelas, nos morros, nas palafitas; negou a eles anos e anos de educação formal, acesso a saneamento básico, empregos formais com melhores salários, cerrou as portas das universidades para os cursos socialmente valorizados e estigmatizou gerações e gerações de jovens de pele escura como ‘suspeitas’, jovens sujeitos a serem alvos, a serem os primeiros a levar um tiro depois serem questionados, jovens vistos, tratados e representados em todas as instâncias como ‘classes perigosas’.

Nosso racismo cínico e reiterado

No Brasil se você nasce do sexo masculino e da cor preta/parda você tem poucas chances de permanecer vivo. TODAS AS ESTATÍSTICAS DOS MAPAS DA VIOLÊNCIA ANO A ANO COMPROVAM ISSO. O genocídio da juventude negra em nosso país é vergonhoso, é expressão da barbárie, é de enrubescer qualquer pessoa minimamente bem informada, com um pingo de consciência social.

O cinismo da sociedade conservadora brasileira ‘branca’ que não questiona nunca seu status privilegiado de branquitude inventou o ‘racismo cordial’ mais conhecido como “democracia racial”. No século XXI este cinismo perverso muitas vezes esteve presente em falas como as de Demóstenes Torres, o ex-senador cassado envolvido na quadrilha de crime organizado de Carlinhos Cachoeira, incensado como o ‘paladino da ética e do combate à corrupção’ por aquela revista representante do PCC das Comunicações, a fina Flor do Fascio que criminaliza todos os movimentos sociais, os povos indígenas, os quilombolas, que compara homossexuais a cabras, que inventa entrevistas sem áudios, que inventa grampos no Senado e que tenta há dez anos, a cada edição, derrubar governos progressistas legitimamente eleitos! E para desgosto de ativistas pela democratização das comunicações como eu, essa mídia bandida é alimentada por polpudas verbas governamentais dos governos federal, estaduais, municipais, além de estatais e Câmaras Legislativas.

É a disputa de corações e mentes, estúpido!

É claro que vivemos uma disputa simbólica, uma disputa de corações e mentes. Numa sociedade de história escravagista, patriarcal, ditatorial, autoritária como a nossa qualquer milímetro de avanço que combata a ordem secular de opressão é visto pelos donos do poder como um risco ao seu poder (e é). Nestes dez anos de alguns avanços sociais importantes (mesmo que a extrema esquerda ache que são migalhas) não vivemos um só dia em que seu Luiz Inácio Lula da Silva não fosse esculhambado por sete famílias que controlam o que você deve saber, quando você deve saber e como você deve saber. Mesmo depois que o ex-metalúrgico saiu do poder, vemos os esforços constantes dos articulistas capatazes destas sete famílias querendo enforcá-lo, esquartejá-lo, expor os seus pedaços em praça pública, salgar a terra onde ele pisou e condenar suas futuras gerações para que como no Antigo Regime nenhum outro operário ouse, se atreva a disputar o poder.

O papel das empresas-igrejas com suas tevês e bancadas no Congresso não é outro também que o de disputar e garantir seu mercado do medo. Um dos ‘líderes’ religiosos dessas igrejas midiáticas é ex-umbandista, disputa, portanto, no mercado religioso, espaço para os seus negócios.

Quanto menos cidadania houver mais espaço há para esses oportunistas da fé que vivem do medo de comunidades expostas a mais extremada violência. Não é à toa, portanto, que tais igrejas midiáticas cresçam nas zonas mais periféricas e sem a presença efetiva do Estado, onde a polícia não garante a Segurança Pública e as comunidades são reféns do tráfico, das milícias ou da banda podre da polícia que com o crime se mistura e se define.

Não se disputa corações e mentes para a cidadania sem investimento pesado na educação

Cem por cento dos royalties para a educação, e esse dinheiro usado para adquirir recursos tecnológicos, formar bons professores e remunerá-los bem para que os bons profissionais permaneçam nas escolas formando nossos estudantes. Cem por cento dos royalties para a educação usados pra criar bons centros de pesquisa, centros de memória, para que o Brasil possa cumprir todos os tratados internacionais de que é signatário nos quais se compromete, por exemplo, investir na elaboração de acervos da memória e história do tráfico de escravizados, na história dos povos africanos que para cá vieram, em materiais didáticos inovadores que ensinem alunos pretos e brancos que a história do Brasil é também a história dos povos indígenas, africanos, afrobrasileiros e que conhecer esta história nos torna pessoas melhores, menos intransigentes, menos ignorantes, menos estúpidas.

Certamente esses alunos evangélicos de Manaus que se recusaram a fazer um trabalho sobre a cultura afro-brasileira se fossem educados desde o princípio pela lei 10639/03 (a lei fará 10 anos no ano que vem, eles são alunos do ensino médio, se a lei fosse uma realidade efetiva nas escolas brasileiras desde a sua promulgação significaria nove anos de aplicação na realidade escolar) já teriam informações suficientes para saber que o candomblé é uma religião genuinamente brasileira, gestada nas senzalas e cujos praticantes fazem uso da mitologia dos orixás, mas com uma série de rituais originais que se distanciam das religiões dos ancestrais praticadas no continente africano nos territórios sudaneses. Saberiam que escola não é lugar de proselitismo de espécie alguma nem político, nem religioso e quando a religião é tema dentro da sala de aula seu viés só pode ser o da perspectiva antropológica. Saberiam que a garantia para exercer a liberdade religiosa, para que no espaço privado e de suas igrejas eles sejam livres pra vivenciar a sua fé só é possível se for assegurado o respeito aos praticantes de todas as religiões e que isso só é possível por meio da defesa intransigente do Estado Laico o que significa respeitar numa escola pública um projeto que pretende apresentar aspectos da cultura brasileira pra a comunidade escolar.

Já vi na cidade de São Paulo professores das periferias longínquas e abandonadas por todos, inclusive pelos gestores da administração pública, reféns de pais e pastores intolerantes e ameaçadores. Professoras tão mal preparadas que reproduzem o racismo até mesmo nos exemplos que usam em exercícios de alfabetização.

Felizmente neste caso, a escola manaura teve uma conduta corretíssima, chega a ser surpreendente professores e dirigentes não se omitirem e defenderem o princípio de respeito às diferenças e combate ao preconceito, poisisso não é o mais comum, ao menos diante do cotidiano que conheço de professores oprimidos e opressores, sem informação, sem acesso a bens culturais, eles próprios praticantes de religiões intolerantes. Que o Brasil se espelhe na escola estadual Senador João Bosco Ramos de Lima – na avenida Noel Nutels, Cidade Nova, Zona Norte, Manaus, Amazonas, pois certamente teremos menos cidadãos ignorantes e intolerantes.




Atualização: O vereador-pastor da Quadrangular de Pato Branco que fez o pronunciamento contra a coleção de História foi Antônio Urbano da Silva, na época, vereador pelo PL. Dois outros vereadores assinaram com Antônio Urbano da Silva requerimento a ser dirigido aos secretários da Educação do município e do estado solicitando providências para retirada dos livros de circulação. São eles: Leonir José Favin e Vilmar Maccari, à época no PMDB e PDT, respectivamente. Agradeço ao amigo Fábio Arruda por guardar a documentação e permitir esta nota.


Polêmica: Alunos se recusam a fazer trabalho sobre cultura afro alegando apologia ao Satanismo e Homossexualismo

15/11/2012




Professores e alunos de uma escola estadual rejeitaram apresentar trabalhos sobre cultura africana durante Projeto Interdisciplinar e alegaram discriminação contra religião evangélica.

O protesto de um grupo de 13 alunos evangélicos do ensino médio da escola estadual Senador João Bosco Ramos de Lima – na avenida Noel Nutels, Cidade Nova, Zona Norte -, que se recusaram a fazer um trabalho sobre a cultura afro-brasileira – gerou polêmica entre os grupos representativos étnicos culturais do Amazonas.

Os estudantes se negaram a defender o projeto interdisciplinar sobre a ‘Preservação da Identidade Étnico-Cultural brasileira’ por entenderem que o trabalho faz apologia ao “satanismo e ao homossexualismo”, proposta que contraria as crenças deles.

Por conta própria e orientados pelos pastores e pais, eles fizeram um projeto sobre as missões evangélicas na África, o que não foi aceito pela escola. Por conta disso, os alunos acamparam na frente da escola, protestando contra o trabalho sobre cultura afro-brasileira, atitude que foi considerada um ato de intolerância étnica e religiosa. “Eles também se recusaram a ler obras como O Guarany, Macunaíma, Casa Grande Senzala, dizendo que os livros falavam sobre homossexualismo”, disse o professor Raimundo Cardoso.

“O que eles queriam apresentar fugia totalmente do tema e eles acabaram montando a tenda fora da escola, no sol. Depois de conversarmos eles foram para o pátio, mas o trabalho não podia ser avaliado porque não tinha a ver com a feira”, disse o coordenador adjunto da escola Raimundo Cleocir.

O caso gerou a revolta nos pais, que foram para escola tentar saber o motivo das notas baixas que os filhos iriam receber. Os estudantes alegaram discriminação contra a religião evangélica e, ao saberem do caso, militantes dos direitos humanos avisaram as entidades respectivas.
Para os alunos, a questão deve ser encarada pelo lado religioso. “O que tem de errado no projeto são as outras religiões, principalmente o Candomblé e o Espiritismo, e o homossexualismo, que está nas obras literárias. Nós fizemos um projeto baseado na Bíblia”, alegou uma das alunas.




Polêmica entre representantes de Fórum,OAB e MPE (Odair Leal)Intolerância gera debate na escolaA escola realizou uma reunião entre os professores, pais e alunos para explicar o ocorrido com a participação de representantes dos Direitos Humanos, Movimento Religioso de Matriz Africanas, Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Marcha Mundial das Mulheres.Como representante do Conselho dos Direitos Humanos, Rosaly Pinheiro mediou a reunião.
“Fomos convocados para mediar a reunião, pois é um assunto muito delicado e é preciso articular com as pessoas o argumento de que vivemos numa democracia, e todos tem liberdade de expressão”, declarou.Jefferson Carlos, um dos alunos, explicou as razões de sua equipe não concordar com o tema. “Tivemos que ler um livro chamado Jubiabá do Jorge Amado, onde um garoto tem amizade com um pai de santo. Eu achei muito estranho isso porque teríamos que relatar essa história no trabalho. 
Queríamos apresentar de outro modo, sem falar sobre isso”.Mãe de uma das alunas, Wanderléa Noronha, contou estar decepcionada. “A discriminação aconteceu conosco. Minha filha não quis apresentar o tema e sofreu bullyng pelo os outros alunos. Por que não pode haver espaço para a religião evangélica na feira?”, indagou.O pastor Marcos Freitas do Ministério Cooperadores de Cristo, do qual os alunos fazem parte, não gostou da literatura que foi estudada nos trabalhos. “Tinha homossexualismo no meio, eles querem que os alunos engulam isso?”, disse.A polêmica entre os alunos evangélicos e a escola provou a ida de representantes do Fórum Especial de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros do Amazonas, da Ordem dos Advogados do Brasil, secção do Amazonas, e do Ministério Público do Estado.A diretora da escola, Isabel Costa, disse nunca ter visto isso nos sete anos que o Projeto Interdisciplinar aconteceu. “Eu fiquei muito abalada com o tamanho da confusão que se deu”, contou.Para a representante do movimento de entidades de direitos humanos e do Fórum Especial de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros do Amazonas, RosalyPinheiro, a problemática ocorrida na escola reflete uma realidade de racismo e intolerância à diversidade.


“Nós temos dados de que 39% dos gestores e alunos das escolas são homofóbicos. Essa não pode ser encarada como uma oportunidade para se destacar um fato ruim, mas sim uma oportunidade de se discutir, de uma forma mais ampla essas questões com os alunos”, disse.





Leis 10.635 e 11.645

Luiz Fernando Costa, que faz parte do corpo docente da escola e também é Presidente do Movimento Negro no Amazonas, destacou na reunião que a escola seguia as diretrizes da lei federal 10.635 e 11.4645 que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena nas escolas.

“Todo este tema está no currículo da escola, a discussão é sobre ensino das culturas e não sobre a religião” afirmou.

Raimunda Nonata Corrêa, dirigente da Coordenação Amazonense das Religiões de Matriz Africana (Carma), concordou que também a religião não era o foco do debate. “A escola não é espaço de disputa religioso, mas sim para qualificar um aluno com cidadão brasileiro, num país que é plural”

Para a representante do Ministério Público, Carmem Arruda,a situação também deve ser encarada como uma oportunidade de esclarecer a comunidade.“É uma chance de discutir a diversidade e uma oportunidade de construirmos uma conscientização junto não apenas aos alunos, mas sim às famílias que serão fazem refletidas junto a comunidade”.

Representante do Fórum pela Diversidade da OAB/AM, Carla Santiago, ressaltou que o episódio não era para ser encarado como um ato que fere os direitos de negros, homossexuais, mas sim um momento de conscientizar os alunos sobre a etnodiversidade. Continua mantida a posição da escola de cobrar o trabalho original passado aos alunos pelo professor de História.

sábado, 22 de dezembro de 2012

uma resitência gaúcha


DILMA TEM A VER
COM O MENSALÃO, SIM !


Ou a Presidenta se deixou contaminar pelos neo-petistas que a cercam e se esqueceu de uma expressãosinha – “luta de classes” – , que ela deve ter conhecido enquanto na cadeia ?

Conversa Afiada






Saiu numa colona (*) do Globo, aquela que é o melhor Proust que o PiG (**) planaltino conseguiu produzir, a seguinte preciosidade:

A Presidenta está “azeda … com o mensalão, que não tem nada a ver com ela, entrando para atrapalhar o Governo, numa briga infecunda entre o presidente do STF e da Câmara …”

NAVALHA



Como se sabe, o Palácio do Planalto, no atual Governo, passou a ser povoado por um conjunto significativo de neo-petistas pigais (**).

Talvez seja um neo-petista esse “um de seus ministros “, o que passou a informação especialíssima ao colonista global.

O amigo navegante deveria, porém, levar em conta que a Presidenta tem tudo a ver com o mensalão.

Primeiro, porque foram condenados sem prova alguns dos arquitetos do edifico político que permitiu uma desconhecida economista mineiro/gaúcha tornar-se presidenta da República.

Dilma deve mais ao Dirceu do que ao Celso Furtado.

Dilma tem a ver com o mensalão, sim, porque a condenação sem provas de líderes políticos insubstituíveis do PT significa que, cedo ou tarde, a mesma excepcionalidade chegará aos seus (dela) calcanhares.

Ou a Presidenta se deixou contaminar pelos neo-petistas que a cercam e se esqueceu de uma expressãosinha – “luta de classes” – , que ela deve ter conhecido enquanto na cadeia ?

E que a elite furiosa, anti-chavista que se instalou no Brasil e no Supremo, na bancada dos Chinco Campos, “tem lado”?

Ela acha que o julgamento do mensalão NÃO foi politico ?

Que o decano Celso de Mello, fã do Chico Campos, é um técnico ?

Que foi um julgamento tão técnico quanto o cálculo da desvalorização patrimonial das empresas de energia elétrica?

Ela tem a ver com o mensalão, sim, porque foi ela quem ofertou ao Brasil um Ministro do Supremo da altura do Fux.

O que deveria servir de advertência na hora de escolher os sucessores do trânsfuga Ayres Britto e do insigne decano, que, provavelmente, vai para casa sem julgar a ação que considera a TV Globo de São Paulo uma apropriação indébita.

Seria bom ela não se iludir com as chaleiras neo-petistas: quem frita bolinho com a Ana Maria Braga e os “prousts” brasilienses por eles será fritado.

Não é isso, Palocci ?

Adiantou salvar a Globo da concordata ?

E quem te enforcou, nobre consultor ?

Não é isso, Odarelo ?

Adiantou dar o furo ao jornal nacional ?

A resistência de Marco Maia à ameaça de garroteamento da Camara não é uma “briga infecunda”.

É uma resistência heroica, gaúcha, que tem a ver com a estabilidade institucional de que ela, a Dilma, será a maior beneficiária.

Se o Supremo fecha o Congresso, na próxima viagem sobe a rampa do Palácio.

E se essa “infecunda” briga resultou na suspensão do Orçamento de 2013, a culpa é dela, a Dilma.

Que acha que governar é abrir estradas.

A Dilma poderia, muito bem, nas férias do fim do ano, ler biografia de seu líder de juventude, o engenheiro Leonel de Moura Brizola, de autoria do F. C. Leite Filho.

Ele também não perdia “uma briga infecunda”.

(A propósito: Leite Filho é blogueiro sujo e não recebe um tusta da SECOM. A SECOM, como se sabe, é uma instituição eminentemente “técnica”, que destina 2/3 de sua verba à Globo.)

Por fim, a Dilma e o PT.

A Presidenta Dilma é do PT.

Ela não existe fora do PT.

Ela não se re-elege sem o PT.

Não existe o “PT contaminado”, o PT do Lula, do Dirceu, do Genoíno, e o “PT imaculado”, dela.

O PT é um só.

Limpo e “sujo”.

E quem disse que os buldogues investigativos do PiG (**) não andam atrás das sujeiras do Governo Dilma, para cuspir no ano que vem ?

A Rose é o aperitivo.

A campanha presidencial de 2013 será sangrenta.

O Cerra vem aí, mais inescrupuloso do que nunca.

E o PiG (**) vai defender a Dilma do Cerra …

Se “um de seus ministros” oferece na bandeja informações privilegiada aos pigais, ela deveria promover um “contingenciamento de vazamento”.

E não deixar vazar o que mais serve ao Golpe: pontas de informação que nutram a hipótese de ela romper com o Lula, aquele do “lado contaminado” do PT.

Se ela se entregar a esses neo-petistas e a petistas de sempre, como o Cardozo, um dia, o Lula vai ter que salvá-la.

Quando ela cair no abismo.

Para onde se encaminha, se achar que é maior do que o PT.

E do que o Lula.


Paulo Henrique Amorim



(*) Não tem nada a ver com cólon. São os colonistas do PiG (**) que combatem na milícia para derrubar o presidente Lula. E assim se comportarão sempre que um presidente no Brasil, no mundo e na Galáxia tiver origem no trabalho e, não, no capital. O Mino Carta costuma dizer que o Brasil é o único lugar do mundo em que jornalista chama patrão de colega. É esse pessoal aí.

(**) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

o mundo dos mundos...


Para entender o xadrez da política - 2

Autor: 
 
No dia 11 passado, publiquei o post "Para entender o xadrez da política".
Vamos ao próximo levantamento, à luz dos últimos episódios.

Como é o jogo de poder nas democracias

  1. Há três mundos distintos na opinião pública. Um, o mundo da chamada voz das ruas, que elege políticos, de vereadores a presidentes. O segundo, o mundo da opinião pública midiática, controlado por grandes grupos de comunicação. O terceiro, o mundo das instituições, onde se inserem os Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e as demais instituições constitutivas do Estado: Forças Armadas, Ministério Público, órgãos de controle, diplomacia etc. Importante: esse mundo, seja no plano das funções ou familiar, é influenciado majoritariamente pelo mundo da mídia.
  2. O mundo das instituições é fundamentalmente legalista e formalista, no sentido de seguir normas, regulamentos e leis. Há maneiras de dar by-pass na legalidade que seguem sempre o mesmo padrão: denúncias de corrupção, quebra da ordem econômica e social e, no caso de republiquetas latino-americanas, o fantasma da subversão. O clima de caos aumenta a sensação de vácuo de poder e alguém acaba ocupando. Meses atrás publiquei aqui um extraordinário artigo de Afonso Arinos de Mello Franco, de 1963. Ele próprio integrante da UDN, mostrava como a oposição manipulava conceitos que, em 1963, ele já via defasados: como o fantasma da Guerra Fria. E diagnosticava: se não houver pulso da parte do governo, termina em golpe militar. Não houve pulso, a conspiração prosperou e, depois, foi alimentada por manifestações de rua e comícios que passaram aos militares a ideia de quebra da hierarquia. 1964 foi fruto do vácuo de poder.
  3. A mídia sempre tem papel central nesses movimentos. Durante meses criam-se fatos verdadeiros ou não, escandalizam-se meros problemas administrativos (já que não se consegue produzir escândalos verdadeiros todo dia), martela-se, martela-se até obnubilar a opinião pública e consolidar a ideia do caos. As movimentações de rua são consequência e o melhor álibi para golpes. Se a favor, legitima-os para atender aos pleitos da opinião pública. Se contra, legitima-os para impedir a baderna.
  4. Em muitos episódios latino-americanos – quedas de Fernando Collor, no Brasil, e Carlos Andres Perez, na Venezuela - o golpe ocorreu via aliança Legislativo-Mídia. Em outros casos – tentativa de derrubada de Chávez – na aliança entre Mídia e setores das Forças Armadas. Em casos recentes, na parceria Mídia-Supremo. Em todos os casos, há o clamor da opinião pública legitimando os golpes.
  5. O atual embate STF x Congresso visa definir quem é a lei. Não se trata de episódio trivial, briga de egos e quetais. É briga de poder MESMO. Na eventualidade de um episódio crítico qualquer no futuro, quem conseguir ser a LEI manobrará todo o universo das corporações públicas. Se não houver esse momento crítico, cada personagem se recolherá novamente a seu papel tradicional e a disputa não terá passado de uma briga de egos. Melhor: de imensos egos.

As peças do jogo no quadro atual

Os pontos levantados  não significam que há uma organização conspiratória juntando todas essas peças. Deflagra-se um processo e são as circunstâncias específicas que determinam a dinâmica e conferem um papel a cada agente.
Entendidos esses aspectos genéricos do jogo de poder, vamos ao quadro atual:
  1. O PT é bom de rua, bom de voto e ruim de instituições. Quando Lula assumiu, tentou avançar através de dois operadores: José Dirceu e Antônio Palocci. A estratégia de Dirceu consistia em assumir todo o know-how de poder desenvolvido por FHC, o controle daquele grande rio subterrâneo do poder de fato, onde transitam os poderes constituídos, poderes econômicos, lobistas, parlamentares donos de bancada, técnicos e sistemas de influência em geral. No início do governo, ainda verde, essa estratégia levou o partido a “adotar” o esquema Marcos Valério, legítima criação do PSDB mineiro e que chegou ao Planalto através das mãos de Pimenta da Veiga, Ministro das Comunicações de FHC. Depois, aprendeu, mas o pecado original não pode ser exorcizado.
  2. O “mensalão” amarrou a ação de ambos os operadores, derrubou-os e, para afastar o fantasma do impeachment, Lula, inspirado por Márcio Thomas Bastos, apostou em um republicanismo ingênuo, no qual FHC jamais embarcou: não indicou o Procurador Geral da República, usou as indicações do STF (Supremo Tribunal Federal) para gestos simbólicos, descentralizou as ações da Polícia Federal. E deu todo o espaço político de que essas estruturas necessitavam para ambicionar mais espaço político. É movimento típico das burocracias . Quando não há nenhuma forma de resistência à sua expansão, a tendência é ocupar espaço. O quadro de quase confronto atual é resultado direto do vácuo de poder no sistema judiciário, muito mais do que de manobras conspiratórias.
  3. Com o vácuo, cada ator político – PGR, STF, setores internos da PF – pôde crescer livremente, sem resistências e sem risco. O PGR Roberto Gurgel acumulou seu poder empalmando em suas mãos (e no da sua esposa) todos os processo envolvendo personagens com foro privilegiado. A maneira como ministros do STF atuaram no “mensalão” – um comparando o partido do governo ao PCC, outro incluindo falas fora do contexto da própria presidência da República – é típica de quem, à falta de qualquer tipo de limites, deixa de supor e passa a acreditar piamente que é Deus
  4. Finalmente, a cobertura exaustiva do julgamento do “mensalão” calou fundo na classe média – e não apenas na midiática. Graças ao Jornal Nacional, entrou no imaginário das famílias, das crianças e dos velhos. Acredita-se em um mar de corrupção incontrolável embora nem se identifiquem bem quem são os atores.
  5. A lógica que vigorou até agora para Lula e o PT – a cada campanha midiática a resposta das urnas – vale para eleições, não para o jogo institucional que se arma.

Cenário da desestabilização

O que seria um cenário de desestabilização? Esses cenários não são planejados de antemão, mas frutos de circunstâncias que vão se somando até virar o rascunho do mapa do inferno. Mostra-se, aqui, uma situação limite hipotética.
1. Intensificação da campanha midiática em duas frentes: a denuncista e a econômica.
O “efeito-mensalão” será absorvido com as festas de fim de ano e um janeiro tradicionalmente morno. Haverá a necessidade de substituí-lo por outros temas candentes.
A “denuncista” em tese depende da disposição do PGR e de setores da PF de abrir inquéritos e vazá-los para a mídia amiga. Há um processo nítido de auto-alimentação entre mídia e o PGR. Vaza-se o inquérito, monta-se um estardalhaço; com base no estardalhaço tomam-se outras medidas que resultam em mais estardalhaço. Tem que se atuar sobre esse cordão umbilical.
A econômica dependerá fundamentalmente do desempenho da economia e, principalmente, dos dados do PIB no primeiro semestre. Como já alertei aqui, a crítica se concentrará na atuação da Petrobrás no pré-sal, nos financiamentos do BNDES e no PAC.
2. Reação intempestiva do PT e Lula levando a movimentos de rua, com possibilidade de conflitos.
Leve-se em conta que a cobertura do “mensalão” tirou do PT o monopólio da mobilização popular. Agora há espaço para marchas contra a corrupção e coisas do gênero.
3. Reações do governo que possam ser interpretadas como ameaça às instituições.
4. Supremo sob controle do grupo dos cinco dizendo que, agora, “eu sou a lei” e se impondo para conter o caos.

As estratégias de lado a lado

Entendidos os pontos centrais da disputa, vamos tentar avançar no que poderiam ser as táticas de lado a lado.
Da oposição, obviamente, é elevar a fervura da água. Para tanto, necessita manter acesa a parceria com o PGR e com setores serristas da Polícia Federal para garantir a alimentação de escândalos; e declarações bombásticas de Ministros do STF para dar solenidade às suposições. E investir tudo em escândalos permanentes, desses que permitem um vazamento por dia e duas declarações retóricas de Ministros do STF por semana.
Enquanto isto, tratar de alimentar o negativismo do noticiário econômico superdimensionando notícias negativas e minimizando as positivas.
Da parte do governo, o jogo é o oposto, é baixar a fervura. Significa o seguinte:
  1. Considerar finalizado o episódio “mensalão”. Para tanto, o PT terá que dar baixa no balanço das lideranças atingidas. Do mesmo modo, a Presidência se afastará cada vez mais do episódio e reforçará o legalismo. No início, a inação do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, era coisa dele. Agora, não: é coisa dela.
  2. O MPF é permanente; Roberto Gurgel, passageiro. Como organização burocrática, disciplinada e legalista, bastará que seja tratado com respeito e que o governo emita sinais discretos sobre a sucessão de Gurgel, sem nada que afronte a autonomia relativa do órgão e sem nada que alimente as fantasias continuístas do grupo de Gurgel. Automaticamente se formarão novos centros de poder e influência internos.
  3. Em relação ao STF, o problema não é o órgão, evidentemente, mas a coalizão circunstancial que permitiu aos “cinco do Supremo” votar em bloco, em um STF desfalcado, e, com a hegemonia provisória, tornarem-se celebridades. Havendo normalidade na política e na economia - e acerto na substituição de Ministros - termina a maioria circunstancial, já que as Ministras, severas nas suas sentenças, mostraram-se discretas e legalistas. Celso de Mello voltará a se comportar como lente, Gilmar como político, Marco Aurélio como outsider, Luiz Fux buscará outras lâmpadas em torno das quais esvoaçar – bom radar porque especialista em rodear as lâmpadas que irradiam maior calor.  E Joaquim Barbosa… continuará sendo Joaquim Barbosa.
  4. No plano econômico, torcer para que venha logo a colheita das medidas plantadas nos dois últimos anos. E melhorar substancialmente as ferramentas de divulgação dos atos positivos de política econômica. O reajuste dos combustíveis foi passo importante para devolver à Petrobras o fôlego financeiro, tirando-a da linha de fogo.

Fatores de atrito

Há dúvidas no ar, obviamente. A manutenção de um clima de tranquilidade, com a economia sob controle, será relevante para que a nova formação do Supremo retorne à discrição e à responsabilidade institucional que se exige do órgão.
Gurgel e Joaquim Barbosa continuarão ativos. Manterão a parceria? São incógnitas.
A grande tacada da mídia serão as investidas contra Lula. Essas, sim, poderão provocar as manifestações de rua que se pretende para ampliar a percepção de caos político. No MPF, há uma gana para pegar Lula que transcende a própria figura do PGR.
É por aí que o bicho pode pegar. E é por aí que deverá se concentrar a atuação política dos que não pretendem assistir o país pegar fogo.
Nem se ouse apostas sobre quem pode botar mais gente na rua. Entrar nesse jogo é tiro no pé na certa.

Ei, eu também, eu também...


Deus lhe pague, Augusto Nunes

Posted by eduguim on 21/12/12 • Blog da Cidadania






Papai Noel chegou mais cedo pra mim, este ano. E o regalo natalino originou-se de onde menos podia esperar.

O Bom Velhinho que me presenteou, em verdade está mais para bom velhaco. Todavia, não posso deixar de agradecê-lo.

O indigitado teve a pachorra de eleger núcleos como os do mensalão para aqueles que cometem o “crime” – na mente doentia do dito cujo – de apoiar o ex-presidente Lula.

O meu benfeitor atende pelo nome de Augusto Nunes e é colunista da maior revista semanal do país, detendo antiga carreira tanto no jornalismo quanto no “jornalismo”.

Antes de reproduzir esse presentaço de Natal que me deu, porém, quero antecipar que, entre os núcleos que delirou, está um “Núcleo Jornalístico Esgotosférico”.

Veja, leitor, quem esse sujeito pôs na sua lista de alvos:

Eduardo Guimarães,

Emir Sader,

Franklin Martins,

Hildegard Angel,

Jânio de Freitas,

Leonardo Attuch,

Luis Fernando Verissimo,

Luis Nassif,

Marcos Coimbra,

Mino Carta e

Paulo Henrique Amorim.

Que dizer? Estou emocionadíssimo. Vou pôr o post de Nunes numa moldura e ficar olhando pra ele pra ver se acredito que mereço estar naquela lista.

O vice-esgoto da Veja, porém, deve ter se enganado. Sou apenas um representante comercial que escrevia cartas de leitor para grandes jornais e que, ao ser censurado por eles quando começou a divergir, decidiu criar um blog.

O cara me coloca ao lado de Luis Fernando Veríssimo… Pirou.

Mas que é bom estar em uma lista em que todos, nela, admiram uns aos outros – menos eu, claro, que sou só um penetra –, é “bão” demais.

Só tenho medo de que Nunes se arrependa e me tire dessa lista que, ao fim do post, reproduzo na íntegra.

Seja como for, mesmo que a notoriedade vier a ser breve, sinto-me na obrigação de agradecer àquele que, querendo me insultar, elogiou-me como poucas vezes fui elogiado.

Deus lhe pague, Augusto Nunes.

*

Confira, abaixo, a lista dos alvos da Veja



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

outra alma torturada atirará em um restaurante fast food


“Eu sou a mãe de Adam Lanza”

Como a tentativa de enfrentar doenças mentais com hipermedicação ou mesmo cadeia favorece, nos EUA, tragédias como a de Newtown
Por Liza Long, em The Blue Review | Tradução: Inês Castilho | No Outras Palavras
Três dias antes de Adam Lanza, 20 anos, matar sua mãe, e abrir fogo contra uma classe cheia de crianças em Connecticut, meu filho Michael (nome fictício), de 13 anos, perdeu o ônibus da escola porque estava usando calças que não eram as do uniforme.
“Eu posso ir com essas calças”, disse ele, o tom crescentemente agressivo, as pupilas negras engolindo as íris azuis.
“Elas são azul marinho”, respondi. “Sua escola diz que as calças só podem ser pretas ou cáqui”.
“Eles me disseram que eu podia usar dessa cor”, insistiu. “Você é uma vaca idiota. Posso usar as calças que bem entendo. Estamos na América, tenho direitos”.
“Você não pode usar as calças que bem entende”, eu disse, em tom afável, razoável. “E definitivamente não pode me chamar de vaca idiota. Você está proibido de brincar com seus jogos eletrônicos pelo resto do dia. E agora entre no carro que vou levá-lo para a escola.”
Vivo com um filho que tem uma doença mental. Amo meu filho, mas ele me apavora.
Algumas semanas atrás, Michael puxou uma faca e ameaçou me matar e depois se suicidar, quando o mandei devolver à biblioteca livros que já estavam vencidos. Seus irmãos de 7 e 9 anos já conhecem o esquema de segurança – antes mesmo que eu mandasse, correram para o carro e trancaram as portas. Eu consegui tirar a faca das mãos do Michael, e então recolhi metodicamente todos os objetos pontiagudos da casa e os guardei num pote de plástico que agora anda colado em mim. Enquanto isso, ele continuava, aos gritos, a me insultar e ameaçar me matar ou me ferir.
Aquele conflito acabou com três corpulentos policiais e um paramédico contendo meu filho para colocá-lo em uma maca, de onde seguiu para uma dispendiosa viagem de ambulância até a unidade de saúde de emergência mais próxima. O hospital psiquiátrico não tinha leito naquele dia, e Michael se acalmou no pronto socorro. Depois, eles nos mandaram para casa com uma receita de Zyprexa e uma consulta marcada com um psiquiatra infantil.
A gente ainda não sabe o que Michael tem. Espectro do autismo, ADHD, Transtorno Desafiador ou Desordem Explosiva Intermitente – todos eles foram sugeridos nos vários encontros com oficiais de condicional, assistentes sociais, conselheiros e professores e administradores da escola. Ele está metido num pântano de medicações antipsicóticas e alteradoras do humor, uma novela russa de planos comportamentais. Nada parece funcionar.
No início do sétimo ano, Michael foi aceito em um programa intensivo para estudantes superdotados em matemática e ciência. Seu QI está acima da média. Quando está de bom humor, ele de bom grado falará sobre assuntos que vão da mitologia grega às diferenças entre a física einsteiniana e newtoniana. Está de bom humor grande parte do tempo. Mas, quando não está, é preciso cuidado. E é impossível prever o que o deixará fora de si.
Depois de algumas semanas em sua nova escola, Michael começou a exibir comportamentos cada vez mais estranhos e ameaçadores. Decidimos transferi-lo para o programa local de comportamento mais restritivo, um ambiente escolar contido onde crianças que não podem conviver em classes normais podem reivindicar seu direito a cuidados públicos e gratuitos das 7h30 às 13h50, de segunda a sexta, até completarem 18 anos.
Na manhã do incidente das calças, Michael continuou a argumentar comigo no carro. Ao fim, pediria desculpas e se mostraria cheio de remorsos. Pouco antes de chegar à escola, ele disse: “Mãe, me desculpa. Posso jogar vídeo game hoje?”
“De jeito nenhum”, respondi. “Você não pode agir como agiu de manhã e pensar que terá seus privilégios de volta tão rapidamente.”
Seu rosto assumiu uma expressão fria, e seus olhos ficaram cheios de uma raiva calculada. “Então vou me matar”, ele disse. “Vou pular fora do carro e me matar.”
Isso aí. Depois do incidente da faca, eu disse para ele que, se falasse essas coisas de novo, eu o levaria direto para o hospital psiquiátrico, sem see ou mas. Não fiz mais nada, exceto virar o carro na direção oposta, para a esquerda ao invés da direita.
“Onde você está me levando?”, ele disse, repentinamente preocupado. “Aonde estamos indo?”
“Você sabe aonde estamos indo”, respondi.
“Não! Você não pode fazer isso comigo! Você está me mandando para o inferno! Está me mandando direto para o inferno”.
Estacionei em frente ao hospital, acenando freneticamente para um dos médicos que estava de pé ali fora. “Chame a polícia”, eu disse. “Correndo.”
Michael já se encontrava então totalmente fora de si, gritando e batendo. Eu o abracei apertado, de modo que não pudesse escapar do carro. Ele me mordeu várias vezes e cravou os cotovelos na minha caixa torácica repetidamente. Ainda sou mais forte que ele, mas isso não vai durar muito tempo.
A polícia veio rapidamente e levou meu filho gritando e chutando para dentro das entranhas do hospital. Comecei a tremer, e meus olhos se encheram de lágrimas conforme eu preenchia a ficha de entrada: “há dificuldades com… em que idade seu filho… havia problemas com… seu filho alguma ver experimentou… seu filho fez…”
Pelo menos agora temos seguro de saúde. Recentemente aceitei um emprego em uma faculdade local, desistindo da minha carreira como freelancer, porque quando você tem uma criança como essa, precisa de benefícios. Faz qualquer coisa para conseguir esses benefícios. Nenhum plano individual de saúde cobre esse tipo de coisa.
Durante dias, meu filho insistiu que eu estava mentindo – que fiz tudo aquilo pra me livrar dele. No primeiro dia, quando liguei para saber como estava, ele disse, “eu te odeio. E vou me vingar assim que sair daqui.”
No terceiro dia, ele era novamente o meu menino doce e calmo, todo remorsos e promessas de tornar-se melhor. Venho ouvindo essas promessas durante anos, não acredito mais nelas.
Na pergunta do formulário, “Quais suas expectativas quanto ao tratamento?”, escrevi, “Preciso de ajuda”.
E é verdade. Esse problema é grande demais para eu resolvê-lo sozinha. Às vezes não há boas opções. Então o que você tem a fazer é só orar e confiar que, em retrospectiva, as coisas vão fazer sentido.
Estou compartilhando essa história porque sou a mãe de Adam Lanza. Sou a mãe de Dylan Klebold e de Eric Harris. Sou a mãe de James Holmes. Sou a mãe de Jared Loughner. Sou a mãe de Seung-Hui Cho. E esses jovens – e suas mães – precisam de ajuda. No despertar de outra horrenda tragédia nacional, é fácil falar sobre armas. Mas é tempo de falar sobre doença mental.
De acordo com a revista Mother Jones, de 1982 para cá ocorreram 61 assassinatos em massa envolvendo armas de fogo nos Estados Unidos. Dentre os matadores, 43 eram homens brancos, e apenas uma era mulher. O foco da Mother Jones foi em se os assassinos obtiveram suas armas legalmente (a maioria conseguiu). Mas sinais de doença mental extremamente visíveis, como esses, poderiam nos levar a considerar quantas pessoas nos EUA vive com medo, como eu.
Quando perguntei ao assistente social do meu filho sobre minhas opções, ele disse que a única coisa que eu poderia fazer seria dar um jeito de acusá-lo de algum crime. “Se ele voltar ao sistema prisional, será fichado”, disse. “É o único modo de conseguir alguma coisa. Ninguém vai prestar atenção a você a não ser que faça acusações contra ele.”
Não creio que meu filho seja caso de cadeia. O ambiente caótico exacerba a sensibilidade de Michael a estímulos sensoriais e não é capaz de lidar com a patologia subjacente. Mas parece que os Estados Unidos estão usando a prisão como solução para pessoas mentalmente doentes. De acordo com o Human Rights Watch, o número dos doentes mentais nas prisões dos EUA quadruplicou de 2000 a 2006, e continua a aumentar. Na verdade, o índice de doentes mentais entre a população encarcerada é de 56%, cinco vezes maior do que a da população não prisioneira.
Com os centros de tratamento e hospitais estatais fechados, as prisões são agora o último lugar a se recorrer em caso de doença psiquiátrica – Rikers Island, County Jail de Los Angeles e Cook County Jail em Illinois abrigaram os maiores centros de tratamento do país em 2011.
Ninguém deseja mandar para a cadeia um gênio de 13 anos de idade que ama Harry Potter e sua coleção de animais. Mas nossa sociedade não nos dá outras opções, com seu estigma à doença mental e seu sistema de saúde fragmentado. Então outra alma torturada atirará em um restaurante fast food. Em um shopping. Uma classe de jardim da infância. E a gente vai juntar as mãos e dizer, “Alguma coisa precisa ser feita.”
Concordo que alguma coisa precisa ser feita. É tempo de termos uma conversa ampla e significativa sobre doença mental. É o único modo de a nossa nação poder curar-se de verdade.

Liza Long é escritora, música e estudiosa da antiguidade clássica. Também é mãe de quatro crianças brilhantes e amadas, uma delas com necessidades especiais.

Quem fala em insubordinação fala em hierarquia...

Brechas para o autoritarismo
O que é (mesmo) intolerável, inaceitável, incompreensível…


publicada quarta-feira, 19/12/2012 às 13:38 e atualizada quarta-feira, 19/12/2012 às 13:57


Escrevinhador



Por Paulo Moreira Leite, no Vamos Combinar

Não há motivo para surpresa no voto de Celso de Mello, autorizado o Supremo a cassar o mandato de parlamentares. Embora a decisão contrarie o artigo 55 da Constituição, que determina expressamente que cabe a Câmara cassar o mandato de deputados – e ao Senado, fazer o mesmo com senadores – este voto era previsível.

A maior surpresa veio depois. Após anunciar seu voto, Celso de Mello declarou que qualquer reação do Congresso, contrariando sua decisão, será “intolerável, inaceitável e incompreensível.” Ele ainda definiu que seria “politicamente irresponsável” e “juridicamente inaceitável.” Mais: seria uma “insubordinação”.

São palavras que pressupõem uma relação de autoridade entre poderes. Celso de Mello disse que há atitudes que o STF pode tolerar ou não.

Pode compreender, aceitar ou não. Quem fala em insubordinação fala em hierarquia.

Confesso que percorri a Constituição e não encontrei nenhum artigo que dissesse que o Congresso é um poder “subordinado” ao STF. A Constituição diz, em seu artigo primeiro, que “todo poder emana do povo, que o exerce através de seus representantes eleitos.”

Acho coerente com este artigo numero 1 que caiba ao presidente da República escolher os ministros do Supremo. E o Senado referenda – ou não – a escolha. Sempre entendi que há uma harmonia entre os poderes. Devem tolerar-se e respeitar-se. Mas, se há uma hierarquia ela se define pelo voto.

Foi Luiz Inácio Lula da Silva quem indicou Joaquim Barbosa, posteriormente aprovado pelos senadores. O mesmo aconteceu com Celso de Mello, indicado por José Sarney. Ou com Gilmar Mendes, indicado por Fernando Henrique Cardoso. Foram os eleitores que escolheram Lula e Fernando Henrique. Sarney foi escolhido pelo Colégio Eleitoral, expressando, de forma indireta e distorcida, a vontade dos eleitores.

E foi pelo voto de 407 constituintes, ou 72% do plenário, escolhido por 66 milhões de brasileiros, que se escreveu o artigo 55, aquele que garante que o mandato será cassado (ou não) por maioria absoluta de parlamentares. É um texto tão cristalino que mesmo o ex-ministro Carlos Velloso, favorável a que a Câmara cumpra automaticamente a decisão do STF, admite, em entrevista a Thiago Herdy, no Globo de hoje: “No meu entendimento, ao Supremo cabia condenar e suspender os direitos políticos e comunicar a Câmara, a quem caberia cassar o mandato.”

No mesmo jornal, Dalmo Dallari, um dos grandes constitucionalistas brasileiros, afirma: “o constituinte definiu e deu atribuição ao Legislativo para que decida sobre a matéria. O Parlamento, em cada caso, verifica se é a hipótese de perda de mandato.” Para Dallari, “temos que obedecer o que a Constituinte estabeleceu. Então eu só vou obedecer naquilo que me interessa? No que estou de acordo? Não tem sentido.”

Ao se apresentar como poder moderador entre a Justiça e o Parlamento, na Constituinte de 1824, Pedro I disse que aceitaria a Constituição desde que…”ela fosse digna do Brasil e de mim.”

Hoje, a Folha de S. Paulo, define a decisão do STF, de cassar os mandatos, como um “mau passo.” O jornal explica:

“O fundamento dessa interpretação está na própria Constituição. O parágrafo segundo do artigo 55 diz que somente o Congresso pode decidir sobre cassação de mandatos de deputados condenados. A regra se baseia no princípio de freios e contrapesos -neste caso, manifesta na necessidade de preservar um Poder de eventuais abusos cometidos por outro.

Com a decisão de ontem, como evitar que, no futuro, um STF enviesado se ponha a perseguir parlamentares de oposição? Algo semelhante já aconteceu no passado, e a única garantia contra a repetição da história é o fortalecimento institucional.”

Essa é a questão. O artigo 55 destinava-se a proteger os direitos do eleitor, ao garantir que só representantes eleitos podem cassar representantes eleitos.

Com sua atitude, o Supremo cria um impasse desnecessário.

Se a Câmara aceita a medida, transforma-se num poder submisso. Se rejeita, será acusada de insubordinação frente a Justiça.

É fácil compreender quem ganha com essa situação. Não é a democracia. Só os candidatos a Pedro I.

E isso é que é mesmo “intolerável, inaceitável, incompreensível…”



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