quarta-feira, 18 de abril de 2012

Dr. Marcelo – O Diário do Inferno


Do que morreu dr. Marcelo, o jovem médico que trabalhava na Cracolândia?

Viomundo

Marco Aurélio Mello: Bem-vindo ao inferno (Atualizada após a apresentação do documentário Dr. Marcelo – O Diário do Inferno e a reação desde ontem dos internautas nas redes sociais)


Natasha, Marcelo e o filhote Laos, hoje com 5 anos de idade

por Conceição Lemes

Neste domingo, o Domingo Espetacular, da TV Record, apresentou uma reportagem especialíssima sobre crack, como nunca você viu: Dr. Marcelo – O Diário do Inferno. Seu cenário, a região do bairro da Luz, que ficou conhecida como Cracolândia.

Esqueça os lugares-comuns das matérias já feitas sobre o tema: câmeras escondidas flagrando “doidões”, usuários tratados como vagabundos, bandidos, criminosos, rostos e vozes camuflados, para não serem identificados…

Em vez disso, dependentes químicos de crack há anos, com nome, sobrenome, à luz do dia, relatando as atrocidades a que são submetidos por policiais civis e militares e guardas metropolitanos. Também falando, com lucidez gritante, do descaso, preconceito e desumanidade com que são tratados inclusive por profissionais de saúde, incapazes de perceber a tragédia humana, social e sanitária dessas pessoas, tratadas pior do que bichos.

O fio condutor é o diário do doutor Marcelo dos Santos Clemente. Um jovem de origem humilde, pai alcoólatra e que, aos 14 anos de idade, viu sua mãe ser tirada de casa numa camisa-de-força, para ser internada num manicômio. Estudante de escola pública, aos 21, entrou na faculdade de medicina mais concorrida do Brasil – a USP. Aos 26, formou-se médico e escolheu trabalhar diretamente com usuários de crack, num dos lugares mais degradados da cidade de São, a Cracolândia. Um verdadeiro inferno. Trabalhou aí de agosto de 2010 a abril de 2011. Morreu, subitamente, aos 27 anos. Era casado com Natasha, também estudante de medicina, e pai do Laos, um garotinho hoje com 5 anos de idade.

Uma história ímpar de um médico que fez realmente opção pelos seus pacientes. Uma denúncia grave de dois excelentes e seriíssimos jornalistas — Marco Aurélio Mello e Gustavo Costa — que precisa ser investigada. A reportagem tem 29 minutos. Depois de assistir à versão completa, com 38 minutos, conversei com Marco sobre os caminhos percorridos pela dupla para retratar fielmente todo esse inferno e o que aconteceu com o doutor Marcelo.

Viomundo – A reportagem de vocês é diferente de tudo o que já foi feito sobre crack. Como nasceu essa ideia?

Marco Aurélio Mello – Começou em novembro do ano passado. O Ministério Público da Infância e Juventude estava querendo montar uma tenda na Cracolândia, para tentar resgatar crianças e adolescentes, por meio de internação voluntária. Aí, o Gustavo foi fazer uma caminhada com um deles lá, numa sexta-feira, dez da noite, e ficou impressionado. “Um feirão a céu aberto, umas 2 mil pessoas”, ele chegou me contando. “Fumam na sua frente, ficam doidões na sua frente, nunca vi nada igual.”

Nesse dia, ele ouviu pessoas falarem de um médico chamado Marcelo que trabalhava lá. E foi atrás da história. Entrou em contato com posto de saúde da região, que informou que o médico não trabalhava mais ali, porque tinha morrido em abril de 2011. O Gustavo, com a ajuda de um enfermeiro que fazia parte da equipe de saúde, conseguiu chegar à Natasha, a mulher do Marcelo.

A Natasha foi logo dizendo: “A gente não gosta de jornalista… o Marcelo sempre foi muito resistente a jornalistas, porque chegam lá com câmeras escondidas, fazem umas imagens, criminalizam todo mundo, fica parecendo que ali é tudo um monte de bandido, criminoso. Não é só isso que tem ali dentro. Tem gente”.

O Gustavo sugeriu então que ela conhecesse melhor o nosso trabalho. Ficou tentando convencê-la a encontrá-lo para conversarem pessoalmente. Uns 15 dias depois ele conseguiu. Os dois se encontraram numa padaria próxima à casa dela: “Está bom, eu converso com vocês, só não sei se quero gravar”.

Uns dias depois Gustavo voltou a se encontrar com a Natasha na mesma padaria. Dessa vez, fui junto. Mostramos a ela que seria importante contar essa história. Dissemos que iríamos contá-la da forma menos sensacionalista possível, que seria mais documental. Dissemos que tínhamos plano de ouvir o máximo de pessoas, que queríamos apresentar um mosaico de depoimentos, que iríamos nos basear no próprio diário do Marcelo… Aí, ela cedeu o diário para gente. Um calhamaço.

Viomundo – O que o doutor Marcelo conta nesse diário?


Marco Aurélio Mello – Ele relata as atrocidades cometidas por policiais militares, civis e guardas metropolitanos na região da Luz, mais conhecida por Cracolândia. Retrata também a situação desumana dos dependentes químicos que vivem precariamente no centro da cidade mais rica da América Latina. Infelizmente, o médico não viveu a tempo de levar suas queixas ao conhecimento das autoridades em Brasília.

Viomundo – A Natasha fez algum tipo de exigência?

Marco Aurélio Mello – Ela deixou claro desde o início que não queria que ele fosse mistificado como herói, porque ele mesmo não aceitaria isso. Queria que a história dele fosse contada como era mesmo. E nós assumimos esse compromisso com ela.

Por exemplo, tem um documento de próprio punho do Marcelo para a Natasha, onde ele diz que tentou três vezes o suicídio, recorrendo a remédios. Uma delas nós não conseguimos confirmar, pois só a avó dele testemunhou e ela não está mais viva.

Por isso nós relatamos apenas duas. A primeira, quando tinha 12 anos de idade. Tomou uma caixa de remédio que a mãe dele usava para ver o que acontecia com ele. No documento que escreveu para a Natasha, faz uma linha do tempo sobre as coisas mais importantes na vida dele. E quando ele tinha 12 anos o que considerou mais importante foi ter tomado a caixa de remédio. Ele diz: “Tento o suicídio”. Dois anos depois, viu a mãe sair de casa numa camisa-de-força, para internação psiquiátrica.

A segunda tentativa de suicídio foi quando estava no primeiro ano da faculdade de Medicina. Ele combinou lítio, medicamento usado para tratamento de transtorno bipolar, com LSD – uma droga sintética muito usada pelos hippies no fim dos anos sessenta – e foi parar no pronto-socorro. O serviço médico da universidade chamou a tia dele, que é com quem morava, e depois disso passou a ser acompanhado. A tia e Natasha se revezavam para evitar que ele tentasse se suicidar, de novo. Á noite, a tia vigiava, durante o dia, a Natasha.

Viomundo – O doutor Marcelo era usuário de crack?

Marco Aurélio Mello – A mulher garante que não. E, de tudo o que apuramos, é pouco provável que tenha sequer experimentado.

Viomundo – A Natasha é médica?

Marco Aurélio Mello – Sim. Atualmente faz Residência Médica na Universidade Federal do ABC.

Viomundo – Quando vocês começaram a tocar mesmo a matéria?

Marco Aurélio Mello – No início de janeiro. O primeiro passo foi ouvir a Natasha. Fomos para a cada dela, ficamos lá o dia todo. Gravamos o seu depoimento, filmamos tudo o que tinha por lá: livros, fotos… No dia seguinte, o Gustavo foi com a equipe para a casa da tia Ana, que foi quem o acolheu, quando Marcelo decidiu fazer medicina. Ela mora pertinho da Faculdade, atrás da MTV, onde antes funcionava a extinta TV Tupi. Na casa da tia, reviramos e copiamos tudo também: apontamentos, livros, fotos, filmes caseiros da família…

Depois que gravamos com a tia, fomos para a Cracolândia. A Prefeitura tinha invadido a área e estava começando a limpar do local. Quando entramos nas ruínas, vimos que tudo aquilo que o Marcelo dizia no diário estava ali, era real mesmo. Estava ali todo o cenário descrito no diário do Marcelo. A história estava inteirinha na nossa frente: a entrada, os cubículos, os telhados…

Aí, pedimos ao Giba (Antonio Gilberto) que gravasse tudo o que pudesse até o sol cair, porque era um material inédito e dali a pouco iria desaparecer, a Prefeitura ia dar fim a tudo, como, de fato, acabou acontecendo. Gravamos o dia inteirinho. E já marcamos pra três dias depois para sair gravando com a família dentro das ruínas.

Fizemos uma imersão. Quando um não estava online, o outro estava, trocando e-mail, telefonando, conversando com as pessoas, levantando todo o material. Desde o início, o Gustavo, insistentemente, ficou tentando convencer os colegas da faculdade a conversar com a gente. Três semanas depois conseguimos levar todos para um estacionamento abandonado, onde fizemos um set de filmagem e gravamos até a meia-noite os depoimentos maravilhosos deles.

Viomundo – Notei que não há ninguém da Secretaria da Saúde falando. Por quê? E o enfermeiro que ajudou a localizar a mulher do Marcelo?

Marco Aurélio Mello — Esse enfermeiro foi muito legal, muito solícito. Mas por uma razão que a gente não consegue explicar, ele não quis gravar a entrevista. A gente fez, via assessoria de imprensa, gestão na Secretaria da Saúde do município, para ouvir funcionários que atuavam no CAPs (Centro de Atenção Psicossocial), onde o Marcelo trabalhava. A Secretaria de Saúde disse que os funcionários por livre e espontânea vontade preferiram não nos dar entrevista.

Viomundo – Como vocês conseguiram com que usuários de crack dessem entrevista de cara limpa, com nome, sobrenome?

Marco Aurélio Mello – Acho que o Gustavo tem um talento nato para isso. Ele entrou em todos os lugares. Foi conversando com as pessoas, dizendo o que ele realmente queria fazer, tentando convencê-las a contar a história de alguém que foi importante para elas e ganhando a confiança. Quando você trata a pessoa como ser humano, com dignidade, a pessoa não tem por que se omitir. É uma questão de química. Ele acabou convencendo o pessoal a falar. E assim foi.

Viomundo – O Marcelo morreu do quê?

Marco Aurélio Mello – A gente investigou muito isso, porque achou que tinha que saber a causa da morte dele, mesmo que não fosse dar na matéria. Aí, três hipóteses foram consideradas: suicídio, homicídio e morte natural.

Desde criança, o Marcelo tinha uma atração enorme por remédios. Vira e mexe, ele fazia experiências com medicamentos, como atestam os próprios colegas de faculdade. Ele gostava de saber qual era o efeito da droga no organismo. Mas ele gostava de fazer essa observação in loco. Ele era a própria cobaia. Na faculdade ele fez muito isso.

Agora, ele também tinha inimigos o bastante para desejarem a morte dele. É fato também que ele era uma bomba ambulante para explodir a qualquer momento, embora tivesse apenas 27 anos: estava acima do peso, comia coxinha no almoço e pizza no jantar, tinha apnéia obstrutiva do sono, não dormia mais do que quatro horas por noite, vivia à base de energéticos e cigarro, tomava remédio para dormir, remédio para hipertensão arterial, pois era hipertenso… Ele ficou nessa loucura 7 meses.

Viomundo – Quem eram os inimigos? Polícia? Traficantes?

Marco Aurélio Mello – No diário dele existem alguns relatórios que mostram situações difíceis que ele enfrentou. Por exemplo, houve um show na Sala São Paulo, que reuniu autoridades. Nesse dia à tarde, a polícia foi lá e desceu “porrada” em todo mundo. Ele produziu um relatório sobre isso. E mandou pra todo mundo, contando o que havia acontecido. Quando a Guarda Metropolitana fazia incursões para intimidar os dependentes, ele fazia relatório. Quando, por alguma razão, o trabalho dele era obstruído por força policial, ele metia um relatório.

Os policiais da área não gostavam dele de jeito nenhum. Achavam até que ele colaborava com os traficantes, ajudando a levar droga, porque entrava em todos os buracos para tratar os doentes, o que nunca ninguém fez. Os policiais desconfiavam um pouco dele.

O pessoal da saúde também tinha reservas em relação a ele, pois ele partia para cima, mesmo. Criava caso no posto de saúde, quando não tinha remédio, faltava material para sutura ele mandava buscar com os colegas na Santa Casa, no HC… Enfim, fazia relatório, escrachava mesmo a situação. Quando viu que não tinha resposta por parte da Prefeitura, ele procurou o governo do Estado. Também não obteve resposta. Escreveu para a Presidência da República, que encaminhou a correspondência à Senad (Secretaria acional de Políticas sobre Drogas), que é ligada ao Ministério da Justiça. Ele ia ter uma audiência no dia 11 de maio de 2011, morreu um mês antes.

Viomundo — Para quem ele mandava os relatórios?

Marco Aurélio Mello – Para a Secretaria da Saúde do município, para a Subprefeitura da região da Luz…

Viomundo – A esposa dele o que acha?

Marco Aurélio Mello – A Natasha e outras pessoas próximas não acreditam em suicídio, não. Depois que ele morreu, ela foi investigar tudo isso com os professores e chegaram à conclusão de que o Marcelo teve parada cardiorrespiratória devido a edema pulmonar. Dias antes de morrer, ele estava se queixando de dor na perna. Provavelmente era um coágulo que se desprendeu e foi para o pulmão. A Natasha encontrou-o às 6 da manhã de sábado, com a boca espumando. Segundo os professores dela, uma característica clássica de parada cardiorrespiratória por edema pulmonar.

Viomundo – E agora?

Marco Aurélio Mello – O que queremos é que as denúncias do Dr. Marcelo sejam investigadas e seus responsáveis punidos. É o que o Marcelo gostaria que acontecesse.

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