sexta-feira, 26 de agosto de 2011

os neoliberais e os jovens... lá na Inglaterra

Está difícil a vida para os jovens ingleses


por Cris no Somos andando



Claro que sempre complica mais para os mais pobres, mas dessa vez a coisa está feia para jovens de todas as classes sociais no Reino Unido. Mesmo quem pode pagar as muito altas taxas das universidades públicas está tendo dificuldade de acesso. Um número recorde de alunos (mais de 400 mil) ficou fora este ano, muitos inclusive com notas bastante altas.

A seleção entre quem tem direito a ingressar em uma boa universidade, desenvolver uma carreira em uma área de conhecimento e, como consequência, ter um padrão de vida mais elevado (e isso é mais claramente relacionado no Reino Unido do que no Brasil) e quem não tem esse direito envolve dois fatores principais. O primeiro é ter condições de pagar as taxas ou ser selecionado para receber uma bolsa – mas o governo cortou grande parte das bolsas que costumava disponibilizar como medida de enfrentamento à cris(já tratei sobre o fato de se tentar curar a doença com o veneno que a causou), ao mesmo tempo em que as taxas aumentaram. O segundo fator é ter boas notas. Assim como no Brasil, o ensino fundamental e médio (primary e secondary schools) pode ser público e gratuito, a que todos têm direito legalmente, ou pago. Como sempre, o pago é melhor, de forma que a seleção de ingresso à universidade pela nota do aluno também é uma seleção de classe – isso sem falar nos outros fatores que influenciam no aprendizado, como estabilidade familiar, local de estudo, incentivo; enfim, o meio.

O Reino Unido é o mais desigual dos países considerados desenvolvidos. A riqueza dos 10% mais ricos é 273 vezes maior do que a dos mais pobres, segundo artigo do jornalista britânico Seumas Milne no jornal The Guardian, reproduzido no Brasil por Viomundo, Esquerda.net e Correio do Brasil. A situação não é muito diferente da historicamente conhecida no Brasil. A diferença fundamental é que nas terras tupiniquins ela está sendo enfrentada, enquanto no “Primeiro Mundo” ela se agrava. Uma inversão das características sociais nunca dantes vista.

A desigualdade no acesso ao estudo acaba gerando distorções aparentemente banais, mas que podem ser muito graves. Como o medo de não ter um diploma é muito grande, muitos alunos optam por uma alternativa que as universidades oferecem. Os que não conseguiram entrar nos cursos mais disputados, mas têm boas notas podem ter a chance de escolher entre outros cursos em que sobraram vagas. A falta de oportunidades iguais para todos direciona o futuro de muita gente, para caminhos não escolhidos.

Esta notícia mais recente de que uma quantidade recorde de estudantes ficou de fora das universidades prejudica principalmente os jovens de famílias bem estabelecidas, como já comentei, com a ressalva de que na verdade se trata do agravamento de um problema social.

Um em cada cinco jovens está desempregado





Mas é claro que a crise, causada pelo sistema que sempre privilegia uns poucos – e por esses poucos privilegiados que são os mantenedores do sistema que gera a desigualdade que os privilegia –, afeta mais aqueles que sempre foram vítimas. Enquanto muitos perdem a chance de ter a carreira que queriam, outros milhões sequer conseguem um trabalho primário.

O desemprego no Reino Unido também virou notícia há poucos dias. Em Londres, a marca de 400 mil desempregados foi ultrapassada pela primeira vez em 15 anos. Lembrando que 15 anos atrás a Inglaterra vivia um período de recessão profunda, vacas magras, quando o desemprego atingiu níveis históricos. Em todo o país, são 2,49 milhões de pessoas que não conseguem um trabalho. O índice geral, que gira em torno de 8%, sobe para 20% entre os jovens. Um em cada cinco pessoas entre 16 e 24 anos não encontra lugar no mercado de trabalho. E tem quem ainda se surpreenda por esses mesmos jovens terem ido às ruas registrar sua frustração em forma de violência.

E com esse custo de vida…

Soma-se ao desemprego uma legislação trabalhista que permite que se trabalhem diversas horas por dia com poucos momentos de descanso e que paga por hora. O valor mínimo pago por hora de trabalho vai de 2,50 libras para aprendizes com menos de 19 anos no primeiro ano de aprendizagem, ao valor mais comum de 5,93 libras para o trabalhador com mais de 21 anos. Se ele dedicar 40 horas por semana ao trabalho, em quatro semanas ele tira quase 950 libras, o equivalente a 2.660 reais.

O que parece muito vira muito pouco quando se descobre o preço dos aluguéis. A capital, Londres, é uma cidade extremamente cara pra se viver. Especialmente pra se morar. Apartamentos e casas atingem valores absurdos. Os preços de aluguel são anunciados por semana e assustam até mesmo antes de converter pra reais. Um apartamento de dois quartos em uma região honesta– no Centro é muito difícil de encontrar, o que torna os preços proibitivos – não sai por menos de 250 ou 300 libras. Por semana. O equivalente a entre 2,8 mil e 3,4 mil reais por mês. Ainda que o transporte público seja muito eficiente, ele também come uma parte razoável do orçamento mensal e também prejudica os mais pobres – andar só de ônibus é mais barato que andar de metrô, e quanto mais afastado do Centro, mais cara a passagem.

O indivíduo acaba trabalhando muitas horas para tirar um mínimo aceitável e gasta boa parte só no aluguel. O resultado é uma péssima qualidade de vida.

Ou seja, não tem como negar que a Europa vive uma crise brutal, e o Reino Unido, embora não esteja entre os países a serem socorridos, é um dos mais desiguais. A diferença entre classes, muito bem definida socialmente, vai aumentando. Como sempre, não é preciso muita mágica para adivinhar quem paga a conta.

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