quinta-feira, 28 de outubro de 2010

a morte do general calçacurta - II

Sinto orgulho de fazer parte deste momento e colaborar de alguma maneira pra tudo sair perfeito. Gosto dos desfiles militares


─ General, estamos saindo...

─ Vamos acabar logo com isso.

Na medida em que nos retiramos da câmara mortuária as pessoas vão se afastando e se colocam naturalmente atrás da viúva e da filha, acompanhando esse último passeio do General. Procuro manter o ritmo do andar do Jacaré, passo a passo, lentamente. Mas é a cruz das almas que dá cadência à marcha. Vai à frente como nosso estandarte. Vai empurrada por mais um desses amigos anônimos. Direita, esquerda, direita, esquerda. Viramos à direita saindo da sede social do velório e depois de alguns passos viramos à direita no rumo dos apartamentos. Um caminho de guinadas à direita, como a ecoar que a história se repete. O condomínio está em silêncio. Apenas nossos passos são ouvidos e um pequeno rangido que começa a sair da roda direita do nosso guia, como se estivesse se lamentando. Começo a chorar.

Uma pequena subida em nosso trajeto, mas o braço movedor da cadeira pede socorro. Está cansado. Um suspiro de espanto e terror na caravana de carga. Paramos. A cruz das almas impede nosso avanço. Um dos convidados sai do anonimato da tropa e carregado por seu cajado chega até a cadeira agonizante. Um pequeno empurrão na cadeira e voltamos a arremeter. A ladeira foi vencida. O novo ajudante-de-ordens vai o restante do caminho um passo atrás da cruz das almas, por via das dúvidas. Tropa de reforço.

Estamos passando por um gramado muito verde à esquerda e um lago à nossa direita. Olho pelo canto do olho e vejo muitos cisnes naquele lago. Deslizam suavemente por sobre águas tranquilas. Enfiam suas cabeças na água. Parecem envergonhados. A exuberância da sua beleza aparece quando deslizam erguidos pelas águas, com seus alongados pescoços a sustentar suas cabeças bem acima dos seus regaços. Tenho curiosidade de saber o que estão pensando.

Ergo o meu gargalo de soldado. Deslizo minha marcha fúnebre sob meus passos de direita, esquerda, direita, esquerda. Não posso me esconder. Não tenho onde enfiar a cabeça.

Naquele amplo gramado à esquerda vão se aglomerando pessoas. Chegam de todos os lados em silêncio. Meus olhos voltam a ficarem úmidos. O General ainda é muito desejado pela sua gente, seu povo querido.

Aqueles dois também estão aqui, ali no jatobá. A jovem carrega uma barriga imensa, com certeza irá parir o filho por essa vida afora, mas está avelhantada e descascada. O juvenil se ajoelha na frente da jovem velha e acaricia seu ventre curvo, todo arredondado. Tem a bunda caída. O rapaz está sujo, com a roupa malroupida, assim de longe me parece que se meteu em confusão. Sussurra algumas palavras que não consigo distinguir. Ela está chorando, parece se despedindo e não fosse mais vê-lo. Engraçado, mas essa envelhecida parece ser a única cara viva por aqui. Tudo mais parece buscando algum perdão que jamais conseguirá.

De repente, as pessoas aglomeradas no gramado, ao comando da velha barriguda, abrem cartazes com palavras de ordem que jamais pensei tornar a ver. Olho pro Jacaré, ele me olha perguntando sobre o que fazer. Virei os olhos no contorno da tripa amiga que nos seguia e só reconheci velhos. Gente de muito tempo de existência, gastos pelo uso. Todos pouco dispostos em revidar, velhuscos do tempo que não volta e abandona a todos a sua própria sorte

─ Chupa-racha, não vai fazer nada?

Já estava esperando pela intervenção do morto, estava preparado

─ General, os camaradas de armas envelheceram e não têm saúde pra correr atrás de comunistas.

─ Pelo amor de Deus, Chupa-racha faz alguma coisa!

─ General, pra fazer alguma coisa tenho que largar o senhor no chão.

─ Isso não!

─ Eu sei, então o senhor vai ter que se aguentar.

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